10 de dez de 2021 por Raiane Aquino

Quase um ano depois da retomada das aulas presenciais durante a pandemia de Covid-19, as salas de aula das escolas particulares de São Paulo não são mais as mesmas. Mudanças tecnológicas e pedagógicas marcam o dia a dia escolar, enquanto protocolos de saúde e novas práticas de ensino se consolidam neste “novo normal” educativo. Após um 2020 de atividades remotas, 2021 foi o ano da readaptação: em fevereiro, mais de 95% das escolas particulares paulistas reabriram em modelo híbrido, com revezamento de até 35% dos alunos por sala. Ao longo do ano, com o avanço da vacinação – 97% dos profissionais da educação vacinados com duas doses e 90% dos adolescentes de 12 a 17 anos com ao menos a primeira dose –, as restrições foram sendo flexibilizadas. Em novembro, o distanciamento obrigatório de 1 metro foi abolido e 100% dos alunos puderam voltar simultaneamente às classes. Mas a volta não significou retornar às velhas fórmulas.
Adaptação tecnológica dentro e fora da sala de aula
Uma das mudanças mais visíveis foi a integração de novas tecnologias ao ensino. Ferramentas adotadas na emergência do ensino remoto vieram para ficar nas aulas presenciais. Muitas escolas investiram em equipamentos para transmissões ao vivo e mantiveram parte da rotina online. “Equipamos as salas para que isso acontecesse com a melhor qualidade”, conta Patrícia Martins Nogueira, diretora pedagógica do Colégio Pentágono, sobre as aulas híbridas com alunos na classe e em casa simultaneamente. Outras optaram por modelos diferentes: no tradicional Colégio Bandeirantes, a transmissão em tempo real foi descartada para não sobrecarregar os professores; em vez disso, adotou-se um formato flexível, com estudantes realizando atividades a distância em casa e, no presencial, focando em dinâmicas com o professor em sala.
A inclusão de dispositivos pessoais também se ampliou. O Colégio Visconde de Porto Seguro, por exemplo, colocou computadores na lista de material escolar a partir do 1º ano do Ensino Fundamental em 2021 e migrou do livro físico para livros digitais a partir do 6º ano. “Não voltaremos a ser a escola de 2019”, resume Fernanda Flores, diretora pedagógica da Escola da Vila. “Apesar das muitas perdas, a gente aprendeu a olhar com menos tensão para o trabalho virtual, mudamos para um projeto interdisciplinar, misturamos turmas e professores”, explica, indicando que as metodologias evoluíram com as lições da pandemia.
Novas metodologias e foco no acolhimento
Além da tecnologia, práticas pedagógicas e prioridades foram ressignificadas. Após longos meses de isolamento, as escolas particulares paulistas perceberam a importância do acolhimento socioemocional. “A chegada das escolas ao ano de 2021 deve ser marcada pela resiliência, pelo cuidado e por uma perspectiva criativa e inovadora… destaco, sobretudo, as [práticas] que dizem respeito à educação socioemocional”, refletiu Sueli Conte, diretora do Colégio Renovação (SP), sobre o retorno gradual. Na mesma linha, colégios da rede Agostiniana enfatizaram a criação de um ambiente acolhedor. “Criar novas relações é essencial para o desenvolvimento das crianças, e a escola tem um papel fundamental ao acolher, cuidar e promover o sentimento de pertencimento”, destacou Adriana Ribeiro, coordenadora de Educação Infantil no Colégio Agostiniano Mendel, em reportagem sobre a volta às aulas presenciais em 2021. A prioridade, especialmente com os mais novos, foi readaptar os alunos à convivência e resgatar a socialização perdida.
Para recuperar a aprendizagem defasada, tornou-se comum a aplicação de avaliações diagnósticas e aulas de reforço. Escolas organizaram planos de estudo personalizados e ampliaram atividades práticas para cobrir o que o ensino online não contemplou bem – casos de laboratórios, educação física, artes e letramento inicial. “Queremos favorecer mais tempo na escola, com laboratórios maker, oficinas de leitura e escrita, investir em áreas do corpo e artes”, exemplifica Camilla Schiavo, diretora da Escola Viva, que estendeu o período integral em 2021 para enriquecer essas vivências. O foco também recaiu sobre competências não-cognitivas, como cooperação e empatia, integradas ao currículo diário.
Um efeito positivo da pandemia foi o estreitamento da parceria entre família e escola. Com os pais mais envolvidos na rotina educacional dos filhos durante o ensino remoto, a comunicação se intensificou. “Tivemos que nos unir para dar certo” durante 2020, lembra Andrea Andreucci, do Colégio Oswald de Andrade, e essa união continuou em 2021 para apoiar a retomada.
Após um ano de escolas reabertas, o balanço nas instituições privadas de São Paulo é de transformações consolidadas. Protocolos de higiene – uso de máscara, álcool em gel e ventilação das salas – permanecem em vigor e incorporados naturalmente à rotina. Novos hábitos pedagógicos também se fixaram: do uso cotidiano de plataformas digitais às abordagens híbridas e personalizadas de ensino. “Foi desafiador, mas também aprendemos muito”, avalia Damares Sousa Góis Nascimento, pedagoga do Colégio Agostiniano São José (SP). “Neste retorno, nosso foco foi acolher os alunos e recuperar a aprendizagem no seu ritmo. Ver a interação em sala florescer de novo, com ajuda da tecnologia e de metodologias diferentes, tem sido muito gratificante”, diz a educadora. Seu depoimento ecoa o sentimento geral dos profissionais de ensino: após o trauma inicial da pandemia, a educação se reinventou para atender às novas demandas. E, ao que tudo indica, muitas dessas mudanças vieram para ficar nas salas de aula daqui em diante.
